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RESPONSABILIDADE E CUIDADO: A IMPORTÂNCIA DA AJUDA A PREVENÇÃO DO SUICÍDIO
"Quando as coisas não andam bem na sua cabeça, elas não andam bem em lugar nenhum"
Setembro Amarelo é uma campanha que desde 2015 busca a conscientização e a prevenção ao suicídio. Aproveitando o ensejo da campanha, apresentamos formas de levar a sério aquele pedido de ajuda que recebeu ou percebeu.
Vencendo a morte
“Foram duas tentativas.
Lembro que na primeira vez eu acordei antes do despertador, ainda com os olhos fechados – naquela linha tênue em que é quase impossível distinguir sonho da realidade – as coisas pareciam bem nesses primeiros segundos, até meus olhos se abrirem por completo e a ficha cair que o pior estava acontecendo: eu ainda estava viva.
De uma coisa eu estava certa, seria mais um longo dia pela frente carregando o fardo de ter que me torturar em meio a todos os pensamentos para chegar a dolorosa conclusão de que nada mais tinha jeito, somado a frustração de não conseguir estudar e dar atenção para minha família e amigos.
Eu estava exausta e não aguentava mais, estava disposta a colocar um fim nisso.
Foi quando no final da minha aula, que ocorria sempre no 7º andar, eu fui até a sacada do prédio e olhei fixamente para baixo calculando onde o meu corpo cairia e se eu conseguiria ter um fim sem muita dor. Cheguei a apoiar as mãos no parapeito e inclinar para me arremessar, mas em menos de um segundo, pensei o quanto meus pais se sentiriam culpados e eu nem havia explicado que eles não tinham culpa de nada, então acabei desistindo.
Na segunda vez, eu ainda estava angustiada, porém, eu fui me empurrando até o resultado de mais uma nota baixa na matéria que eu estava fazendo pela segunda vez. Corri para o banheiro para ninguém me ver chorar, mas o espelho me acusou o quanto eu havia engordado, aquela imagem era a representação perfeita do fracasso.
Dormir acabou se tornando a melhor parte do meu dia. Mas como tudo que é bom parece ser algo difícil de ser alcançado, a insônia era minha companheira de quase todas as noites. Assim, em meio ao desespero de tentar fugir dos meus pensamentos e me desligar, optei por ingerir o restante de uma caixa de antialérgico e alguns comprimidos de relaxante muscular, depois de poucos minutos a respiração ficou muito pesada, mas não me desesperei, pelo contrário, lembro de sentir um alívio por conseguir fugir dos meus pensamentos. Só me lembro de acordar no hospital com a minha mãe sentada ao meu lado e com os olhos vermelhos de quem havia chorado por muito tempo”
A cada 45 minutos um brasileiro se suicida
O episódio acima narrado em primeira pessoa é real e conta a história de uma aluna da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). Por pouco não se trata de mais um caso para aumentar a estatística da Organização Mundial de Saúde (OMS), a qual aponta que a cada 45 minutos um(a) brasileiro(a) se suicida. O suicídio, na mente de quem comete, pretende colocar um ponto final nos pensamentos negativos que ferem a alma, arrancam a paz de espírito e consomem todas as energias. Segundo os dados da própria OMS, em 90% dos casos de suicídio poderia haver uma prevenção. Diante disso, para os conhecidos da vítima, na maioria das vezes, fica a dúvida: o que poderia ter sido feito para evitar?
Depressão não é só ansiedade, tristeza ou mau humor
Segundo estimativas também da OMS divulgadas em 2017, 9,3% dos brasileiros têm algum transtorno de ansiedade e a depressão afeta 5,8% da população brasileira. Trata-se da nação com mais ansiosos do mundo.
Hoje em dia não se rebobina mais fitas: tudo está à distância de um clique. Ninguém precisa mais esperar dias as fotos serem reveladas para vê-las. À tempo, você se recorda qual foi a última vez que enviou uma carta? E uma mensagem de WhatsApp? Caso essa mensagem enviada via Whatsapp fosse visualizada e não respondida, certamente nasceria a ansiedade pela resposta porque para a interação social não basta um clique e não somos mais acostumados com a espera.
Sentimos que a ansiedade passou a fazer parte da nossa rotina, mas é importante sempre lembrar que a alta carga ansiosa faz com que o corpo físico adoeça. As doenças com “fundo emocional”, da psique, chamadas de doenças psicossomáticas, são um alerta de que o dia a dia tal como é, da maneira que produzimos, não nos é saudável.
A ansiedade pode se manifestar fisicamente como “medos exagerados, estados em que não se consegue relaxar, sensação de que sempre algo ruim está para acontecer, falta de controle sobre seus pensamentos, dificuldade para dormir, palpitação, acordar antes da hora programada, problemas sexuais”, explica a Psicóloga Ângela Alhanati.
A psicóloga Ângela Alhanati aproveita essas características para diferenciar ansiedade de depressão e fazer um alerta. Ela comenta que a ansiedade pode estar presente na depressão, uma doença muito séria e complexa, a qual não é curada com respostas simples, por mais comum qe tenham se tornado. Dizer “isso é falta de Jesus no coração, você precisa orar mais”; “isso é fraqueza de espírito”; “você não tem do que reclamar, você tem um bom emprego e todo mundo gosta de você”; ou que “depressão é coisa de rico” pode piorar o quadro do doente.
A sociedade precisa entender que a depressão é uma indisposição interna, um desequilíbrio químico, que não se trata em um bar ou mesmo na igreja. Os espaços sociais como esses são de fato espaços para exercer conexões, comunicar-se, e encontrar forças para lutar contra as doenças do corpo e da mente, porém de forma alguma podem substituir a ajuda profissional.
Segundo Ângela, a depressão não se confunde com a tristeza e nem com o mau humor. A tristeza e aborrecimentos diários são comuns, inclusive, a tristeza faz parte da vida e ela que faz a gente enxergar possibilidades, pois, em regra o instinto de sobrevivência faz com que as pessoas busquem maneiras de ficar bem e se reinventar.
Em outras palavras, sentir-se triste é comum. Para a psicóloga, porém, deve-se buscar ajuda profissional quando os episódios de tristeza severa, angústia ou insatisfação extrema, duram um longo período de tempo, como mais de seis meses ou um ano.
A depressão é marcada por um vazio profundo, uma apatia, desesperança, falta de energia para a vida. Esse vazio causa extrema indisposição, na qual a pessoa não tem vontade de fazer nada. É comum a ideia de que nada vai dar certo e de que nada pode melhorar, e pessoa não enxerga mais possibilidades e com isso pensa até em morrer.